A inexperiência administrativa somada à vontade de "fazer diferente" — sem mexer nos privilégios de sempre — fez com que as críticas a governantes da nossa região se intensificassem nos últimos dias.
Quando a gestão falha em planejar, a fatia do bolo cortada é quase sempre a mesma.
Todos sabemos como funciona a engrenagem: após o período de gastos eleitoreiros e desvios de gestões passadas, os primeiros setores paralisados em nome do "reequilíbrio fiscal" são a educação, a saúde, as obras e os investimentos sociais.
São cortes profundos, mas cujos impactos atingem os cidadãos de forma individual e gradual.
Na maioria das vezes, a percepção coletiva demorar a se transformar em indignação geral.
Contudo, a conta muda de tom quando o arrocho atinge serviços imediatos, como a coleta de lixo e o abastecimento de insumos essenciais.
Nesses casos, o resultado é instantâneo: as ruas se acumulam de resíduos, as filas dos postos de saúde dobram de tamanho e a insatisfação popular explode de forma direta e inevitável.
Essa mecânica não é nova. Na década de 1970, o famoso personagem publicitário Sujismundo foi criado justamente para constranger administradores públicos que esvaziavam os cofres e paralisavam a limpeza urbana.
Ao perceberem o desgaste político imediato provocado pela sujeira nas ruas, os maus gestores mudaram de tática: transferiram a sangria financeira para a saúde e a educação, onde o prejuízo à população leva mais tempo para ser notado.
Diante disso, resta a provocação: como romper esse ciclo? Já que muitos daqueles que possuem a prerrogativa e o dever constitucional de fiscalizar se mostram omissos, coniventes ou alinhados com o poder, a responsabilidade precisa voltar para quem de fato detém o poder: o povo.
A população precisa assumir o papel de fiscal. E essa cobrança não pode se limitar a desabafos e "curtidas" em redes sociais ou a discursos em parlamentos submissos.
É preciso formalizar denúncias na mídia independente e, sobretudo, nos órgãos de controle, como o Ministério Público.
Precisamos entender, de uma vez por todas, uma premissa básica da democracia: o cidadão é o patrão. É ele quem paga a conta, quem custeia a máquina pública e quem tem o direito — e o dever — de exigir resultados.
Você contrataria um funcionário para gerir a sua casa ou a sua empresa e o deixaria trabalhando o tempo todo sem qualquer supervisão? Obviamente não!
No entanto, em vez de exercer essa vigilância, muitos preferem estufar o peito e declarar: "Odeio política, não quero nem saber!". Trata-se de um ledo engano.
O desinteresse do cidadão é exatamente o combustível dos maus gestores. O seu silêncio é a garantia de que eles continuarão fazendo a festa com o dinheiro público.
Não há transformação social possível enquanto a omissão for a norma. O preço da nossa liberdade e dos serviços públicos de qualidade é a eterna vigilância.
Por Aguinaldo Silva - ex-vice-prefeito de Cabedelo.


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